O calendário vira, e com ele, a folha em branco de um novo ano. Há algo intrinsecamente poderoso e arrebatador na ideia de um começo. É o momento em que a esperança se renova, o passado se acomoda e o futuro se estende como um território vasto e inexplorado, pronto para ser moldado por nossas escolhas.
Mas a vida, com sua inevitável imperfeição, raramente se limita a um único ponto de partida. Por isso, ao lado da beleza dos inícios, jaz a redenção e a força dos recomeços.
- O começo como ato de criação
Todo começo é, em sua essência, um ato de criação. Seja a primeira frase de um livro, o primeiro passo em um novo caminho profissional, ou a primeira hora do dia, ele carrega a mesma potência seminal que encontramos no relato bíblico da criação.
A Bíblia se inicia com a frase mais fundamental de todas: “No princípio, Deus criou os céus e a terra.” (Gênesis 1.1). Este versículo não apenas estabelece o marco zero do universo, mas também nos lembra de que a criação brota do nada (ou do caos, como descrito em Gênesis 1.2). O começo exige fé – a fé de que a ordem pode surgir da desordem, e que a luz pode irromper das trevas.
Esse princípio de criação ressoa também na literatura, como na obra do poeta chileno Pablo Neruda. Seus versos, cheios de paixão e de descoberta do mundo, celebram a novidade de cada instante, a oportunidade de ver o mundo como se fosse a primeira vez. Um novo ano nos convida a sermos co-criadores de nossa realidade, a nomear as coisas que queremos ver surgir em nossa vida, tal como Adão nomeou os animais.
- A poesia dos recomeços
Se o começo é uma necessidade divina e universal, o recomeço é uma graça humana. Ele surge da falha, da decepção, da rota que deu errado. A vida não é uma linha reta, mas uma série de curvas, quedas e levantamentos. A capacidade de se reajustar não é um sinal de fraqueza, mas a maior prova de resiliência e maturidade.
Na jornada espiritual, o conceito de recomeço é crucial. Ele está diretamente ligado ao arrependimento e à misericórdia. O profeta Jeremias, vivendo um período de grande destruição e exílio, encontrou consolo não no que havia sido, mas na promessa do que viria a ser. Em meio à lamentação, ele escreve um dos versículos mais esperançosos sobre o recomeço diário da graça:
“A bondade do Senhor é a razão de não sermos consumidos, as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” (Lamentações 3.22-23).
Esta é a promessa do recomeço: a fidelidade de Deus nos oferece uma nova chance não apenas a cada ano, mas a cada manhã.
Na literatura secular, essa força do reinício é frequentemente explorada. O romance atemporal “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, é um hino ao recomeço. O pescador Santiago passa 84 dias sem pescar nada – o símbolo de um ciclo de fracasso. No 85º dia, ele recomeça, lança sua linha novamente e engaja-se na batalha épica de sua vida. A história nos ensina que o recomeço não garante o sucesso, mas garante a dignidade da tentativa. Mesmo diante da perda total do peixe, no final, Santiago recomeça no plano espiritual e da comunidade. Essa história secular me fez lembrar da jornada de Pedro na pesca maravilhosa, quando passaram a noite no mar sem pescar nada. (Lucas 5.1-11).
III. O caminho do novo coração
Um verdadeiro começo ou recomeço nunca é apenas uma mudança de ambiente ou de circunstância; é, fundamentalmente, uma mudança interna. Não adianta mudar o calendário se o coração permanece o mesmo.
A Bíblia fala sobre essa transformação interior não como uma reforma, mas como uma nova criação. O apóstolo Paulo escreve:
“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas velhas já passaram, e surgiram coisas novas.” (2Coríntios 5.17).
Esta é a essência do recomeço mais radical: a oportunidade de deixar para trás o “velho eu” — os erros, os vícios, as mentalidades limitantes — e vestir-se de algo novo. É um convite a olhar para o ano que se inicia não com a exaustão do que acabou, mas com a energia e a curiosidade do que ainda não existe.
Da mesma forma, a filosofia e a literatura existencialista abraçam a ideia de que somos constantemente forçados a nos redefinir. O filósofo francês Jean-Paul Sartre argumentou que o homem está “condenado a ser livre”. Essa liberdade é a mesma que nos permite, a qualquer momento, descartar o papel que nos foi dado ou o papel que escolhemos mal, e recomeçar a escrever nossa própria história.
Que este novo ciclo, ou qualquer novo dia que a vida nos apresente, seja encarado com a reverência que um começo exige e a humildade que um recomeço oferece.
Lembremo-nos de que o poder não está em nunca cair, mas em usar as misericórdias que se renovam a cada manhã para nos levantarmos e seguir em frente. O começo é a promessa; o recomeço é a perseverança.
Com o caderninho da vida em mãos, a caneta apontada e a certeza da graça renovada, podemos dizer: o passado está no lugar dele, e o futuro é agora.
Referências:
Citações Bíblicas na versão NVI
HEMINGWAY, E. (2013). O Velho e o Mar. (F. de C. Ferro, Trad.). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. (Trabalho original publicado em 1952).
NERUDA, Pablo. Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 25. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.




