A ficção científica de outrora tornou-se a realidade de hoje. Robôs estão cada vez mais presentes em nossas vidas, desde a automação de fábricas até o atendimento ao cliente. Essa crescente integração da robótica e da inteligência artificial (IA) na sociedade levanta uma questão central: estamos caminhando para um futuro incerto, dominado por máquinas, ou estamos apenas no início de uma era de tecnologia avançada?
Para o cristão, essa questão não é apenas tecnológica, mas também ética e espiritual, e a Bíblia nos oferece princípios atemporais para guiarmos nossa reflexão.
A criação da tecnologia é um reflexo da nossa capacidade de inovar e criar, uma característica que nos distingue e nos conecta ao Criador. A Bíblia nos diz em Gênesis 1.26-27 que fomos feitos à imagem de Deus. Essa “imagem” (imago Dei) inclui a capacidade de pensar, de criar e de administrar. A tecnologia, incluindo a robótica, é um fruto da nossa inteligência e criatividade. Em sua essência, ela não é boa ou má; é uma ferramenta. Um robô pode ser usado para automatizar tarefas perigosas e salvar vidas, ou pode ser usado para fins destrutivos. A escolha e a responsabilidade estão nas mãos do ser humano. O problema não é a ferramenta em si, mas o coração que a utiliza.
No entanto, a crescente autonomia dos robôs levanta preocupações. Se as máquinas se tornam capazes de tomar decisões complexas, de que forma isso redefine o que significa ser humano? Isaías 45.9 nos adverte contra a arrogância da criação que se volta contra o seu criador: “Ai daquele que discute com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Por acaso o barro dirá ao que o formou: Que fazes? Ou dirá a tua obra: Não tens mãos?‘”. Essa passagem, embora em um contexto diferente, nos lembra que o ser humano é a criação e Deus é o Criador. Quando criamos algo, como um robô, nossa responsabilidade é de administrá-lo com sabedoria, sem perder a nossa própria identidade ou dignidade. O grande risco da revolução robótica não é que os robôs se tornem “humanos”, mas que nós nos tornemos “máquinas” — frios, sem empatia e com a dignidade reduzida a uma mera função. A Bíblia nos chama repetidamente a sermos compassivos, a nos importarmos com o próximo e a servirmos uns aos outros. O apóstolo Paulo nos exorta em Filipenses 2.3-4: “Não façais nada por rivalidade nem por orgulho, mas com humildade, e assim cada um considere os outros superiores a si mesmo. Cada um não se preocupe somente com o que é seu, mas também com o que é dos outros”.
A automação e a robótica, quando usadas para servir e melhorar a vida humana, como no campo da medicina ou da agricultura, são uma manifestação desse chamado. Mas quando servem apenas à ganância e ao lucro, sem considerar o impacto no emprego e na dignidade humana, elas se tornam uma ameaça. Portanto, o futuro com robôs e homens não precisa ser incerto se ele for guiado por princípios éticos e espirituais. A tecnologia não é o fim, mas um meio. A verdadeira questão não é o quão avançada a tecnologia se tornará, mas o quão humanos seremos ao usá-la. A nossa fé nos chama a sermos bons administradores, a usar nossa criatividade para o bem da humanidade e a sempre nos lembrarmos de que o amor ao próximo deve guiar todas as nossas ações, sejam elas com ou sem tecnologia.
REFERÊNCIAS
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