“Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fl 4.13)
Caros leitores!
No primeiro “episódio” desses escritos, relatei, en passant, o encontro da minha família com a Verdade (Jo 8.32) e de uma verdade tardia: o diagnóstico de autismo, aos 54 anos. Antes da confirmação da neuro divergência, passei por muitas situações que marcaram minha vida intensamente. Por isso, este texto fundamenta-se em Fl 4.13.
Muito se tem falado em autismo. Legalmente, busca-se a garantia dos direitos e o pleno exercício da cidadania da pessoa autista. Todavia, como elas têm sido tratadas no ambiente eclesiástico? Nessa esfera social, desde a adolescência eu vivi momentos de isolamento provocados não apenas pela minha própria dificuldade de interação, mas por ser considerada a esquisita, a “nariz empinado”, a que não se misturava, a que falava demais (muitos imputam, erroneamente, ao autista a baixa expressão verbal), a sabe-tudo (no TEA pode haver propensões a altas habilidades e a QI acima da média), ou a que se considerava superior. Foi sofridamente excludente! Porém, sobrevivi. As máscaras serviram/servem muito bem. O “está tudo bem” era meu lema. Mas, e hoje?
Muitos estudos voltam-se à compreensão do autismo na infância. Percebe-se, em algumas igrejas, um movimento pelo acolhimento e inclusão da criança autista: a educadora cristã, teóloga, especialista em autismo, Samya Vanessa Soares de Araújo tem sido referência nacional no meio cristão. Mas… e quando o autista já é adulto?
É chocante, mas no ambiente da igreja eu já ouvi “não liga pra isso”; “não se apega, esquece”; “você viveu até agora sem saber, por que vai dar valor agora?”; e a frase mais comum “você não tem cara de autista!” Sim. Não tenho cara porque autismo não tem cara; ele é uma deficiência oculta; é um transtorno do neurodesenvolvimento, algo “dentro da cabeça” que, de um lado, dificulta boas relações, interações, que fragiliza a confiança, que repele ardentemente injustiças, que provoca mal entendidos, não porque a pessoa não compreende as coisas ou porque tem limitação intelectual, mas porque a rigidez cognitiva emperra a mudança de visão.
De outro lado, o autismo nos faz viver vigorosamente emoções às vezes consideradas banais. Uma frase que muito ouvi: “você é muito intensa em tudo!” Uma alegria é tão-tão alegre, um sofrimento é tão-tão intenso que paralisa e/ou motiva a outras ações – por exemplo, na morte da minha mãe eu não chorei uma lágrima. Eu me anestesiei. Eu procurei FAZER: eu preparei toda a liturgia do culto fúnebre; da seleção dos textos bíblicos, hinos, a projeção para o data show; também dei a abertura ao culto, pois meu pastor estava de férias e chegou depois da recepção do corpo. Outro pastor amigo teve a sensibilidade de colocar a mão no meu ombro e dizer: “OK, irmã! Eu continuo daqui.” Se não fosse isso, eu não pararia.
Vale esclarecer: outros autistas podem não agir e sentir como eu, pois esta neuro divergência é um espectro: cada um é do seu jeito. Que tarefa difícil para quem é suporte! Durante boa parte da minha vida, a igreja foi meu suporte: eu fugi para dentro da igreja, mesmo usando máscaras. Não quero mais fingir/fugir. Em hipótese alguma, comparo minha vida com a de Paulo, especialmente se voltarmos ao versículo 12 do texto base, mas, salvaguardadas as proporções e contexto, o autismo tardio exige que saibamos passar por muitas coisas. Que a Igreja do Senhor Jesus seja, verdadeiramente, suporte aos neuro divergentes adultos!
Bibliografia
TEA e o luto: quando o processamento emocional é diferente. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DSIISr4jD3e/?img_index=1
Autismo nível 1 em adultos. Disponível em: https://neuroconecta.com.br/autismo-nivel-1-em-adultos/
JÚLIO-COSTA, Annelise; STARLING-ALVES, Isabella; ANTUNES, Andressa Moreira. Leve para quem?: transtorno do espectro autista nível 1 de suporte. Belo Horizonte, MG: Ampla, 2023.




