A formação inicial e contínua dos educadores cristãos: Parte 1
“(…) a formação do professor para o ensino da Palavra de Deus implica, necessariamente, a formação do educador cristão”.
Pretendo desenvolver, neste ensaio, uma noção relacionada à pessoa e a formação do professor-educador cristão no contexto da igreja, à medida que busco problematizar a temática proposta. A partir de algumas leituras que tenho realizado, percebi uma dissociabilidade entre a prática do professor que atua na sala de aula na Escola Bíblica, da pessoa e a atuação do educador cristão no exercício do ministério educacional na igreja.
À primeira vista, parece tratar-se de duas pessoas com funções ou ministérios distintos. Desse modo, este ensaio objetiva compreender e distinguir os papéis desempenhados pelo professor-educador cristão, mas agora de forma indissociável, bem como destacar a importância da formação continuada e de atualização para o serviço cristão no contexto da igreja local.
Neste ensaio, pretendo discorrer sobre cinco abordagens que considero fundamentais para a compreensão do tema. A primeira consiste em uma abordagem neotestamentária; a segunda, em uma reflexão conceitual e ontológica, ser professor-educador cristão; a terceira, na noção de formação inicial e continuada; a quarta, na perspectiva eclesiástica ministerial; e a quinta, na prática do professor-educador cristão desenvolvida no contexto da igreja, Escola Bíblica e outros campos de atuação ministerial.
UMA ABORDAGEM NEOTESTAMENTÁRIA PARA COMPREENSÃO DO MINISTÉRIO DO ENSINO NA IGREJA
Essa noção e abordagem neotestamentária parte da compreensão e do pressuposto de que todo professor da Escola Bíblica é, antes de tudo, um educador cristão. No caso específico do pastor, é um educador cristão por excelência. “E ele designou uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e ainda outros como pastores e mestres, […]”. (Ef 4.11). Pretendo ainda tecer uma breve análise sobre esse texto bíblico.
Para o momento dizer que em relação à pessoa do professor-educador cristão trata-se de pessoa vocacionada por Deus, dotado de dons concedidos pelo Espírito Santo e comprometido com o cumprimento de uma missão divina. Seu papel vai além da simples transmissão de conhecimentos, que independe do lugar de fala, pois está à frente de um ministério dedicado ao ensino e à edificação da igreja, aperfeiçoamento dos santos por meio da Palavra de Deus é um privilégio acompanhado de um senso de responsabilidade e oportunidade.
Portanto, não se trata de uma pessoa meramente indicada ou eleita para ocupar um cargo transitório e temporário, ou seja, por um determinado período de tempo. Logo, não se restringe a uma função, ou há um ofício, mas um ministério da Igreja. O professor-educador cristão da Escola Bíblica deve possuir vocação, preparo espiritual e didático, habilidades e atitudes compatíveis com a sublime responsabilidade de exercer a docência cristã, contribuindo para a formação espiritual e o crescimento e aperfeiçoamento dos alunos. De preferência não ser neófito e nem recém-chegado de outra denominação ou igreja. É fundamental pautar-se pelo zelo doutrinário e por princípios bíblicos. Ele é um professor-educador cristão formador das novas gerações do aprendiz de discípulo.
Nesta perspectiva reconheço que a igreja é uma comunidade aprendente, constituída de pessoas com um ministério vocacional, tanto de homens como de mulheres. O magistério feminino é fundamental e estratégico para o crescimento da igreja e desenvolvimento pessoal e ministerial de toda a igreja. Do mesmo modo reconheço que outras pessoas também estão envolvidas, direta ou indiretamente, no ministério de ensino, independentemente da função que exerçam na igreja. Desde aqueles responsáveis por abrir e fechar o templo, realizar a limpeza de suas dependências, preparar o lanche, entre outras atividades, todos contribuem de maneira significativa para o bom funcionamento do ministério e para o desenvolvimento das ações de ensino.
Para exemplificar essa compreensão, basta uma leitura atenta de (Atos 13.1-5), texto que descreve a primeira ação missionária organizada pela Igreja, sob a direção do Espírito Santo, em favor dos gentios. A narrativa evidencia que, assim como Jerusalém, Antióquia se torna um dos principais centros missionários do cristianismo primitivo. O relato inicia afirmando: “Na igreja em Antioquia havia profetas e mestres: […]”. A construção verbal empregada por Lucas indica uma condição contínua, sugerindo que tais ministros permaneceram exercendo regularmente suas funções na comunidade. O evangelista, portanto, destaca a estabilidade ministerial da igreja de Antióquia. Nesse contexto, os profetas e mestres eram responsáveis, entre outras atribuições, pelo ensino sistemático da doutrina apostólica e pela edificação da comunidade cristã.
Essa realidade permanece atual. Assim como ocorreu na expansão missionária do evangelho entre os gentios, a Igreja continua necessitando de pessoas vocacionadas e comprometidas com o ensino da Palavra de Deus e com a formação dos discípulos de Cristo. O texto prossegue afirmando: “Enquanto cultuavam o Senhor e jejuavam […]”. Essa declaração revela que toda decisão ministerial nasce da adoração, da oração e da consagração a Deus. A Igreja não estava reunida para elaborar estratégias meramente humanas, mas para prestar culto ao Senhor e discernir sua vontade. Desse modo, a missão cristã fundamenta-se no discernimento espiritual e na total dependência do Espírito Santo, verdadeiro sujeito da missão. Em seguida, o Espírito Santo ordena a separação de Barnabé e Saulo para a obra à qual haviam sido chamados. Observa-se, assim, que aqueles que são consagrados para uma missão específica recebem não apenas o chamado divino, mas também o reconhecimento e a confirmação da comunidade de fé. Esse princípio permanece relevante para a Igreja contemporânea.
Todo professor e educador cristão deve buscar continuamente a Deus por meio da oração, da comunhão e da dependência do Espírito Santo, a fim de exercer com fidelidade o ministério do ensino da Palavra. Por fim, Lucas registra: “Então, depois de jejuar, oraram e lhes impuseram as mãos; e deixaram que partissem.”. A imposição de mãos representa o reconhecimento público da vocação daqueles que foram chamados por Deus e enviados pela Igreja. Assim, a missão nasce da iniciativa divina, é discernida na comunhão da Igreja e é realizada na dependência do Espírito Santo.
Entendo que a imposição de mãos, nesse contexto, também pode expressar o senso de pertença e pertencimento, bem como a identificação, a aprovação e o comissionamento por parte da igreja daqueles que são enviados para cumprir a missão confiada por Deus. A comunidade de fé, portanto, não apenas reconhece o chamado divino, mas também participa, de maneira visível, do envio missionário. Sob essa perspectiva, causa certa estranheza ouvir afirmações como: “Não sou mais professor da Escola Bíblica” ou “Não quero mais ensinar na Escola Bíblica; há pessoas mais bem preparadas”. Tais declarações podem transmitir a impressão de que o ensino cristão passou a ser compreendido como um simples cargo administrativo, sujeito à indicação burocrática, à conveniência pessoal ou apenas como um serviço voluntário desempenhado na igreja.
Entretanto, o relato de (Atos 13) apresenta uma compreensão distinta. Segundo o texto bíblico, quem chama, separa e envia é o Espírito Santo; a igreja participa desse processo reconhecendo e confirmando a direção divina. O protagonismo da missão não pertence à comunidade, mas ao Espírito de Deus, que conduz sua igreja conforme sua soberana vontade. Da mesma forma, o ministério do ensino não deve ser entendido como uma atividade ocasional ou limitada a uma função temporária, mas como uma vocação permanente, exercida de maneira contínua e fiel. O ensino e a proclamação da Palavra de Deus constituem o centro da missão da Igreja, pois é por meio deles que os discípulos são formados, edificados e preparados para o serviço cristão.
Como observado anteriormente, a missão nasce na adoração. Ela não tem sua origem primordialmente, nas necessidades do mundo nem no desejo humano de alcançar pessoas, embora essas realidades façam parte de sua abrangência. Sua origem está na própria glória de Deus, que chama, envia e sustenta sua Igreja para o cumprimento de sua vontade. Conforme testemunha o texto bíblico, o Espírito Santo é o verdadeiro protagonista da missão: é Ele quem chama, separa e envia, enquanto a igreja, em atitude de obediência, reconhece, confirma e participa daquilo que o próprio Deus está realizando. Logo, é necessário nos conscientizar que a igreja está em missão, cabe ao professor-educador cristão desenvolver o senso de missão, pertencimento e responsabilidade como igreja.
Conforme mencionado anteriormente, relendo (Ef 4.11) que diz: “E ele designou uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e ainda outros como pastores e mestres, […]”. Uma exegese da expressão “pastores e mestres” sugere que tanto o pastor como o mestre possuem funções muito próximas. Quando o pastor se percebe como um professor-educador cristão, isso deve fazer muita diferença no exercício e na filosofia do ministério na igreja local.
Reconheço que a maioria dos pastores, e eu me incluo nesta relação, exerce o ministério do ensino, seja secularmente, como no ambiente da igreja e, instituições de ensino teológico como Seminários e Faculdades. Entendo que o apóstolo Paulo pode estar descrevendo um único grupo com duas funções ministeriais complementares. O ensino é o principal instrumento pelo qual o pastor, professor-educador cristão ensina, interpreta, explica e aplica a Palavra de Deus na igreja.
Hoje concluímos esta etapa; na semana que vem daremos continuidade ao nosso aprendizado.
Referência
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Século 21. São Paulo: Vida Nova, 2010.
PHILLIPS, Keith. A formação de um discípulo. 2ª ed. rev. ampl. São Paulo: Vida, 2008.
KELLER, Timothy. A fé na era do ceticismo. Como razão explica Deus. São Paulo: Vida Nova, 2023.
SILVA, Genivaldo Félix da. Sala de aula invertida na escola bíblica e nas tecnologias digitais. Uma alternativa para a educação cristã eficaz na igreja. Curitiba: CRV, 2025.

