A partir do século XX, passamos a olhar para a criança de maneira mais atenta à sua constituição psicológica e pedagógica. Esse novo olhar trouxe algo muito importante: o reconhecimento do valor da criança como pessoa. Não apenas como alguém em preparação para o futuro, mas como alguém que já vive, sente e expressa fé.
Esse avanço nos ajudou a compreender que a criança possui linguagem própria, espiritualidade própria e, por isso, necessita de culto, ensino e vivências adequadas à sua fase de desenvolvimento.
Jesus também foi criança
O evangelista Lucas, ao narrar o capítulo 2 de seu Evangelho, apresenta de forma simples e profunda a infância de Jesus. Ali, vemos aquele que é o nosso modelo ministerial, vivendo todas as dimensões do crescimento humano. O texto afirma que ele crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens.
Jesus estava em desenvolvimento. Isso nos ajuda a compreender que o desenvolvimento não é um obstáculo à fé, mas parte do próprio processo de formação espiritual, exatamente como acontece com as nossas crianças.
Espaço, linguagem e vivência
Oferecer um lugar próprio, com linguagem acessível e vivências que conduzam ao ensino da fé cristã, não é um problema. Pelo contrário, é necessário e essencial. A igreja precisa assumir a responsabilidade de pregar o evangelho que salva e transforma e discipula crianças, respeitando sua fase de vida, sua forma de aprender e sua maneira de se relacionar com Deus.
Quando pensamos em uma “igreja da criança”, geralmente associamos essa expressão a um ambiente lúdico, e ele deve, sim, estar presente. O lúdico comunica, aproxima e ensina.
O cuidado com os nomes e os conceitos
O desafio surge quando adotamos uma nomenclatura bíblico-teológica sem refletir sobre as implicações do conceito que ela carrega. Ao chamarmos esse espaço de “igreja da criança”, corremos o risco de deslocar o centro do que é essencial.
A igreja não é da criança, nem do adulto, nem de um ministério específico.
A igreja é de Cristo.
Uma igreja com crianças
Talvez a pergunta mais honesta não seja se devemos ou não ter uma igreja da criança, mas se estamos dispostos a ser uma igreja com crianças. Uma comunidade que discipula, integra, ensina e caminha junto, sem excluir nem infantilizar a fé.
Podemos usar a expressão espaço da criança, pois ela comunica valor e pertencimento. Já a expressão igreja da criança transmite a ideia de separação, sem convivência na adoração comunitária. Muitas vezes, líderes afirmam: “Aqui fazemos igual ao culto dos adultos”. Não se trata de tentar ser igual, mas de ser igreja.
Vivenciar o culto é ver o pastor, o diácono, a recepção, a equipe de mídia. É observar como se acolhe um visitante, como acontece quando alguém se converte, como a igreja ora pelos irmãos que necessitam, e muito mais. Tudo isso forma fé.
Uma igreja que abre espaço para as crianças compreende que a palavra “com” significa estar ao lado deles e com elas. Pensar em uma igreja de Cristo onde pais e adultos desejam estar ao lado da criança, inclusive nos momentos de adoração comunitária, é ser igreja de Cristo. Todos juntos. Todos como corpo. Todos como igreja.
Concluindo
“[…] ao passo que os membros mais apresentáveis não têm necessidade disso. Mas Deus formou o corpo de tal maneira que concedeu muito mais honra ao que tinha falta dela, para que não haja divisão no corpo, mas para que os membros tenham igual cuidado uns pelos outros. Se um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; e, se um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele.” (1Coríntios 12.24–26).
Não é bíblico pensarmos em igreja da criança, de adolescentes, de jovens ou de adultos. A Escritura fala sobre corpo, membros e comunhão. O perigo está em construirmos hoje algo que, no futuro, não fará sentido para crianças e adolescentes, pois não é possível ser igreja de Cristo e corpo quando cada grupo tem a sua própria igreja.
Que Deus nos ajude a sermos igreja desde a mãe que está grávida até o irmão da terceira idade!




