Não é preciso perguntar como um texto latino deve ser dito em alemão (…), mas é preciso interrogar a mãe na casa, as crianças na rua, o homem do povo no mercado (…) é preciso observar como eles falam. (Martinho Lutero, 1483-1546)
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Ao analisar os impactos e o legado da Reforma para a educação, são perceptíveis suas consequências nos campos, religioso, socioeconômico, político e educacional, entre outros. Trata-se de campos de disputa e de poder segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu. Nosso objetivo com esse artigo consiste em demarcar os impactos e o legado da Reforma para a educação a partir das contribuições dos reformadores Martinho Lutero e João Calvino. Para isso, será necessário historicizar o objeto de estudo e pesquisa proposto neste artigo, elaborado para a palestra em comemoração aos 509 anos da Reforma Protestante (31/10/1517–31/10/2026).
Cabe esclarecer que não sou historiador, mas, como professor universitário, lecionei a disciplina História da Educação em Curso de Licenciatura. Ao mesmo tempo, atuo como coordenador pedagógico na Rede Pública Estadual por trinta anos. Desse modo, procuro interpretar os principais fatos e acontecimentos desse período, ou seja, do século XVI com seus desdobramentos na educação pública e/ou privada. Ressalto que o campo da educação não está dissociado de outros campos do conhecimento. É muito provável que nem sequer tenhamos condições de delimitar com exatidão o período da Reforma, a fim de organizar e selecionar seus principais impactos e seu legado para a educação. Trata-se de um movimento complexo, que se estendeu por quase dois séculos e alterou profundamente a história da Igreja.
BREVE HISTÓRICO DOS IMPACTOS E O LEGADO DA REFORMA NA EDUCAÇÃO
Primeiramente, pretendo revisitar os impactos e o legado da Reforma para a educação a partir do século XVI, na Europa Central e Setentrional, considerando os campos educacional, intelectual, literário e religioso, bem como as transformações provocadas pelo Renascimento e pelo movimento protestante, conforme referencial em livros de História da Educação, História da Reforma entre outros.
Durante o final da Idade Média, a Igreja Católica Romana exercia grande influência sobre a sociedade europeia, detendo poder eclesiástico e exercendo influência política. A Igreja intervinha na escolha de governantes, estabelecia impostos e envolvia-se em guerras. Segundo Borges (2014, p.37-38),
a igreja havia mantido os cristãos afastados da principal fonte de informação sobre o próprio cristianismo, isto é, a Bíblia. (…) a leitura da Bíblia foi proibida para os leigos por muitos séculos e, sua interpretação, considerada privilégio do clero. (…) era analfabeta, os ensinos do evangelho não eram comunicados e as heresias, crendices e misticismos de toda ordem foram invadindo a mentalidade do povo.
Conforme Núñes (2017, p.14), “verdade, depois de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), a igreja começou a cair em uma deterioração progressiva, tanto do ponto de vista da compreensão teológica quanto do ponto de vista moral.” havia se corrompido e distorcido os ensinamentos da Bíblia. diria que a Igreja Católica Romana estava passando por uma crise de identidade. Na época dos Pais da Igreja, a catequese foi muito usada para proteger a integridade doutrinária e a disciplina na Igreja e geralmente compunha-se de exposições do Credo dos Apóstolos (p. 71).
A partir dessas ideias, ocorreram mudanças significativas no campo da economia, na educação e na ciência, além de transformações nos valores relacionados à estratificação social. Percebe-se que o cenário histórico europeu estava em plena efervescência: o feudalismo perdia força, as monarquias se fortaleciam e as autoridades políticas e religiosas disputavam o poder.
Segundo Ferreira (p.44) “no passado, os reformadores do Século 16 eram credais e confessionais, isto é, afirmavam as doutrinas essenciais que os pais da igreja estabeleceram nos chamados “credos ecumênicos”, firmados nos grandes concílios eclesiásticos ocorridos em Niceia, em 325, em Constantinopla, em 381, e na Calcedônia, em 451, e resumidos no Credo dos apóstolos, Credo de Nicéia, na definição de Calcedônia e no Credo de Atanásio. Neste período, temos a Vulgata.
É neste contexto que a Reforma Protestante, amplamente associada às ideias e às instituições que emergiram do Renascimento, contribuiu, sob diversos aspectos e de maneira abrangente, para o desenvolvimento do mundo moderno. Entre seus legados, destacam-se conceitos como liberdade, individualismo, igualdade, nacionalismo e democracia. Para Lindberg (2017, p.159) a
reorganização eclesiástica incluía o desenvolvimento de escolas. A educação medieval estava intimamente ligada a escolas monásticas e catedrais; (…). Às vésperas da Reforma, essa aderência eclesiástica à educação havia fomentado ao menos duas atitudes básicas. A primeira era de que a Igreja contribuía com a desigualdade social ao limitar o acesso à educação àqueles que entravam para o ministério ou prática de profissões específicas. A segunda atitude era que a educação era uma perda de tempo, a menos que alguém exercesse cargo eclesiástico, direito ou medicina.
Este é apenas o início; no próximo texto daremos sequência à nossa série de estudos sobre os impactos e o legado da reforma para a educação.
REFERÊNCIAS
ARMSTRONG, Hayward. Bases da Educação Cristã. 2ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1994.
BITUN, Ricardo; LOPES, Cristiano Camilo. Calvino e a educação: contribuições do protestantismo para a educação. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2021. (prelo)
BORGES, Inez Augusto. Educação e personalidade. A dimensão sócio-histórica da educação cristã. 2ª Ed. Rev. Ampl. São Paulo? Cultura Cristã, 2014.
CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: Unesp (FEU), 1999.
FERREIRA, Franklin. Pilares da fé. A atualidade da mensagem da Reforma. São Paulo: Vida Nova, 2017.
FORTALEZA, Weliton Carrijo. Educação e Religião em Comenius na sua Didática Magna. 1ª ed. Belo Horizonte: Koinonia, 2015.
LINDBERG, Carter. História da Reforma. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017.
NÚÑEZ, Miguel. Ensinamentos que transformam o mundo. Rio de Janeiro: Bv Books, 2017.
PILETTI, Claudino; PILETTI, Nelson. História da Educação. De Confúcio a Paulo Freire. 1ª ed. São Paulo: Contexto, 2016.
REEVES, Michael. Sobre ombros de gigantes. Introdução aos Grandes Teólogos de Lutero a Packer. Brasília: Monergismo, 2019.



