“Marta, porém, estava atarefada com muito serviço; e, aproximando-se, disse: Senhor, não te importas que minha irmã me tenha deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude” (Lc 10.40)
Caros leitores!
Prosseguindo nessa série sobre o autismo tardio, neste terceiro episódio, cuja base bíblica está em Lucas 10.38-42, na qual é narrada uma visita de Jesus à casa dos irmãos Lázaro, Maria e Marta, quando esta se viu atarefada e aquela, sentada aos pés do Mestre. Nesta série destaco a “mente ocupada” da mulher autista e sobre a construção da autoestima a partir da ideação da utilidade social.
É inegável que, sócio-histórica e culturalmente, a mulher enfrenta mais cobranças, mais exigências, sofre mais tabus e preconceitos que os homens. Apesar dos novos tempos, persiste no imaginário cultural que as lides do lar, por exemplo, são das mulheres. Nessa direção, à mulher cabem múltiplas tarefas, pois, nos tempos modernos, ela é profissional e dona de casa.
Voltemos ao texto: subentende-se que Marta era a irmã mais velha, que era a responsável pela casa e, na passagem, estava recebendo uma visita ilustre, um grande amigo e, acima de tudo, o Mestre, o qual, indubitavelmente, estava acompanhado de outras pessoas. O serviço da casa aumentou, pois, havia mais pessoas para atender e, com certeza ela queria oferecer o melhor; afinal, quem recebe um amigo de qualquer forma?
É certo que o autismo é um espectro: o que é para um pode não ser para o outro. Há autistas mais “lentos” nas suas ações e reações; há aqueles mais impulsivos e intensos; há os considerados perfeccionistas (alguns até com a comorbidade do transtorno obsessivo compulsivo (TOC), com é meu caso, e, por isso, tudo deve estar “milimetricamente” organizado.
O senso de justiça para os autistas também é muito intenso. A pessoa autista reprova injustiças e, muitas vezes, sofre a dor do outro (é sensível) e pelo outro (sente-se avaliado e, na maioria das vezes, reprovado) – nesse caso, é comum a construção de uma baixa autoestima porque não consegue atender a expectativa do próximo.
Entendemos, culturalmente, que eram justos os cuidados e zelo de Marta. Ela tentou fazer tudo sozinha. Mas a mente ocupada com o bem receber, o tabu construído acerca do aprendizado feminino (Maria não devia estar sentada entre os homens), a avaliação da injustiça da irmã (ficar sentada!?) a levaram a uma crise.
Nos termos próprios, a sobrecarga emocional, social, sensorial resultou num meltdown e a reclamação foi impetuosa. Por que ela mesma não chamou Maria e pediu ajuda? A minha mente autista responde: (1) cansada, ela precisava da validação de uma pessoa “superior” (um homem, um amigo, alguém que reconhecesse sua dedicação); (2) enfrentar a família é mais desgaste, é cara feia, é mais cobrança, é “ser a chata, encrenqueira”; (3) sua autoestima, diante do Mestre, estava se elevando, pois estava sendo útil, mas, ao mesmo tempo, precisava de ajuda e sabia que se fosse pedir pessoalmente não seria validada.
Enfim, as cobranças sobre a mente, o corpo e até sobre as volições femininas são tantas que, muitas vezes, de um lado, a autoestima feminina pode ser construída a partir da ideia/noção de ser útil, ser “comportada”, ser caprichosa, prendada, e do que os outros esperam que ela seja, o que potencializa a ocupação da mente. Por outro lado, a sobrecarga anula todas as construções positivas sobre si mesmo. Porém, acima de tudo isso, está Deus que nos acolhe e nos ama incondicionalmente. Somos amadas, independentemente da nossa condição neuropsíquica. Então, vivamos com Deus e a ele demos glória!
Bibliografia:
La autoestima de las personas con autismo. Disponível em: https://www.fundacionconectea.org/novedades/blog/la-autoestima-de-las-personas-con-autismo
Autismo e autoestima. Disponível em: https://draamandaalmeida.com.br/glossario/autismo-e-autoestima/




