“Vendo-o deitado […]”. “ Passando Jesus, viu um homem cego de nascença” (Jo 5.6; 9.1)
Caros leitores!
Em “Vida com Deus III”, abordei a construção da autoestima em pessoas autistas a partir do seu sentimento de utilidade. Para ser útil ao próximo, é necessário ver (perceber, sentir) a necessidade dele. Isso desconstrói o estigma de que a pessoa autista é insensível, apática, alheia. Minhas experiências de vida, sobretudo profissional (na escola), revelam que autistas aparentam desconexão, mas, de fato, são como pára-raios; por isso, talvez e também, sofram tantas sobrecargas emocionais, sensoriais, sociais.
Neste episódio, tomo para reflexão dois trechos do evangelho de João. Destaco o verbo VER contido neles – no primeiro, Jesus vê um paralítico; no segundo, Jesus, viu um cego de nascença. Ele os viu, percebeu a necessidade deles e curou-os. Outro ponto chave na cura do paralítico é que Jesus pergunta se ele quer ser curado. Para que essa pergunta, se há 38 anos o homem estava ali no tanque de Betesda esperando o mover das águas e tentando cair nelas? Isso prova que Jesus não é invasivo. Ele vê a necessidade, mas não toca sem permissão.
A invisibilização (falta de olhar com atenção, buscar entender) das pessoas autistas gera inúmeros problemas. Meus pais, por exemplo, não entendiam as minhas “manias ou birras” Eu tive de viver como não autista sendo. Entre estereotipias e solidão (isolamento social), eu vivia intensamente, o que mascarou meus sintomas e tardou o diagnóstico, pois “eu não dava trabalho” e fazia tudo com excelência. Até que vieram as explosões (o meltdown – colapso advindo de uma sobrecarga emocional, social e sensorial) após as constantes implosões (shutdown – um recolhimento interno também resultante de sobrecargas), as quais se revelaram em episódios recorrentes de depressão, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e um diagnóstico errôneo de bipolaridade.
Foram tantas as situações que, exausta, eu precisei me olhar. Decidi buscar ajuda para além do psicólogo e do psiquiatra. Fui em busca de um especialista em neuro divergência. O diagnóstico foi certeiro.
Faltaram visão e perguntas, no meu caso. Diante disso, deixo um alerta a você, leitor. Olhe! Veja! Pergunte, converse. Não julgue! Não crie sentenças. Quantas pessoas autistas necessitam apenas de um olhar! De alguém que as veja e as acolha. Quantas crises, quantos choros ou quantos silêncios são, na verdade, a pessoa na condição autista gritando sem palavras “Socorro! Preciso de ajuda.” Ponha-se na brecha (veja), respeitando os limites (pergunte) do próprio autista.
Uma coisa que tenho vivido desde sempre é a falta de alguém perguntar “como posso ajudar?” Outra coisa que causa muito mal é alguém dizer “fique calma.” Não é nervoso, não é falta de calma; é uma crise por sobrecarga. Em vez disso, gostaria de ouvir: o que posso fazer por você? Quer uma água? Vamos sair daqui; eu vou com você. Posso dar um abraço?
Não é fácil ser autista; não duvido que Deus, Jesus e o Espírito Santo me veem. Como isso é maravilhoso, sobrenatural, reconfortante! Glórias e aleluias! Também não é fácil acolher um autista, mas com os olhos de Jesus, é possível ver e contribuir para uma vida melhor – para uma vida com Deus, de fato.
Bibliografia
Como acalmar uma crise de autismo? Disponível em: https://www.apaecruzilia.org.br/site/index.php/noticias/item/248-como-acalmar-uma-crise-de-autismo?.html
Colapsos e desligamentos no autismo adulto – shutdown e meltdown. Disponível em: https://institutoinclusaobrasil.com.br/colapsos-e-desligamentos-no-autismo-adulto-shutdown-e-meltdown/
PARA LER E CONVERSAR COM AS CRIANÇAS:
(E-book gratuito) A banda da maçã cantora, de Marina S. R. Almeida. Disponível em: https://loja.institutoinclusaobrasil.com.br/
(E-book gratuito) Zeca, o menino estranho, de Marina S. R. Almeida. Disponível em: https://loja.institutoinclusaobrasil.com.br/




