“Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fl 4.13)
Caros leitores!
Com este texto encerro uma série sobre diagnóstico tardio de autismo. Foram cinco episódios. Em “Vida com Deus I” falei do meu e da minha família encontro com a verdade (Jesus), do recebimento do diagnóstico, aos 54 anos, e de como ambos foram libertadores.
Em “Vida com Deus II” tratei da (falta de) inclusão de adultos autista no ambiente eclesiástico: como as pessoas ainda têm conhecimento limitado sobre essa neuro divergência e o quanto invalidam o diagnóstico tardio!
Em “Vida com Deus III”, abordei questões relativas à autoestima da pessoa autista (o ter de ajustar-se ao mundo dos “normais” causa esgotamento e sentimento de inferioridade) e da sua construção, a partir do sentimento de utilidade social: ser útil é ser aceito, é ser visto, percebido e, acima de tudo, traz autovalorização, eleva a autoestima.
Em “Vida com Deus IV”, evidenciei a necessidade de visibilização, acolhimento e apoio à pessoa autista, dando dicas de como ajudar.
Neste último episódio, uso Filipenses 4.13 como base, pois, indubitavelmente, tenho podido (sobre)viver sem ou com diagnóstico por e para Cristo.
Eu fiz um curso e, na primeira lição, a questão principal era: Por que você nasceu? Eu sempre fui muito curiosa. Sempre questionei a existência. Encantava-me olhar para meu próprio corpo, ver as veias sob a pele, ver os pelos, ver as unhas e os cabelos crescerem e pensar: “como isso acontece”? A biologia me fascina. Deus nos fez perfeitos. Por exemplo, Ele sabia que precisaríamos de poros e pelos, de saliva para ajudar na mastigação; que a mulher precisaria ovular para engravidar; que, durante a gravidez, a ovulação seria interrompida. Tudo é perfeito em nós! Então, eu nasci para dar glória a Deus: nasci para viver com Deus. Ele permitiu a minha vida e não há outra coisa a fazer se não “devolvê-la” a Ele, vivendo com Ele.
E quem não é “perfeito” também nasceu para dar glória a Deus? Eu ouvia contar que minha avó paterna, em uma das suas gestações, teve varíola. Por milagre, ambas sobreviveram. A criança, uma menina, nasceu com manchas na pele, indicando, aparentemente, ser bolhas secas da varíola. Fisicamente, ela era perfeita. Infelizmente, na primeira infância, minha tia teve paralisia infantil e ficou com seu corpinho deformado: as pernas entortaram, uma ficou mais curta que a outra, uma mão mirrou, a mandíbula enrijeceu… Além disso, ela não falou. Ela ouvia muito bem, mas não falava. A hipótese era de que a varíola tinha danificado a úvula (não se via esse órgão no corpo dela) e, por isso, a mudez. Ela viveu praticamente escondida da sociedade. Nós tínhamos contato com ela, a entendíamos em seus sinais e grunhidos. O excepcional foi aceitar Jesus, sinalizar que Ele era seu salvador e descer às águas do batismo.
Glória a Deus! Aleluia! Hoje ela dorme em Cristo.
A neuro divergência faz parte da minha perfeição. Ela não me faz menor ou maior, pior ou melhor, incapaz ou mais capaz. Há, sim, diferenças, mas eu sobrevivo como todas as outras pessoas (Fp 4.13).
O ruim da diferença não está nela mesma, mas na construção sociocultural e histórica do que é ser normal. A medida da (a)normalidade é que é equivocada. Mede-se a partir de um padrão sociohistoricocultural (está escrito errado? Sim. É proposital: tudo indissociável). Padrões criados fortalecem uns, negam outros. Essa negação pode chegar ao extremo de causar a morte. Se não a morte física, pode provocar a morte emocional e, pior ainda, a morte espiritual, pois as novas do evangelho nem sempre são anunciadas aos neurodivergentes/diferentes porque, julga-se, eles não são capazes de entendê-las.
Neste ano (2026) o tema dos Batistas é “somos um.” Somos um? Infelizmente, alguns precisam ainda alcançar essa graça, quer seja pela resiliência, quer seja pelo apoio de quem já é de Jesus.
Todos temos direito a uma vida com Deus.
SEJAMOS UM!!




